domingo, 30 de outubro de 2016

Carta de despedida

Depois de 5 anos, me pergunto se é falta mesmo que sinto.
E, sinceramente, não é.
Acho que durante minha vida toda, seja por um desejo genuíno ou por uma criação social, esperei por um amor.
Depois de muito tempo, entendi que ele deveria estar em mim, que deveria me amar e me amei.
Me amei e aprendi que assim deveria ser.
Seguir me amando.
Mas o desejo do amor não morreu com o amor próprio e, de forma insistente, ele persiste, está lá, vivo da Silva, mandando lembranças.
Às vezes, por conta do que tivemos, associo-o à lembrança do que tivemos, que foi o mais perto do amor ideal que já cheguei.
E, por ser ideal, que se fez perigoso, se fez perene.
A gente está à espera de um milagre, li uma vez.
E é a espera desse milagre que me faz pensar em você.
Você que é um holograma.
Um homem insosso, um homem sem graça, sem viço ou tesão.
Que se esconde.
Que vive reaparecendo de maneira doentia, homeopática, quando já estou prestes a me libertar.
Aí vem o desejo de viver o sonho, o que não existe e me conecta ao irreal, que é você e toda simbologia que carrega.
Bom é que eu consigo enxergar essa sistemática hoje.
E a consciência me faz amar o real.
Entender que a esperança não pode ser confundida com ilusão ou exasperação.
Te ver como de fato é afasta esse espectro maligno de mim e me faz livre, com toda luta que isso carrega, para amar o que o futuro traz, ainda que por ora, seja a solidão.
Te ver como é me faz querer dizer adeus, meu bem.
Até nunca mais.
Nossas lembranças foram lindas, mas nada disso existe mais.
Não há um até logo. Há uma despedida e fim.
Você é só mais um homem apático, que perdeu sua coragem em determinado momento, que não esbraveja, nem se aplaca.
Você é um desses homens fracos e sem pulso.
Você é meu passado de quem me despeço.
Siga em paz com todas as suas mentiras indulgentes.
Siga o seu caminho e não me deixe nem com saudades.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Então me disseram um dia desses que eu era uma menina fazida. Eu, que nem sabia o que era isso, fui buscar ajuda com o Santo Google para que resolvesse essa dúvida lexical, mesmo se tratando da mesma língua portuguesa, que falamos todos, em todos os cantos do Brasil.
Descobri que ser fazida, seria um misto de arredia, com pessoa que se faz ou se sente e que, por fim, tem dificuldades para ser amada.
Diante dessas tantas revelações concedidas por um ilustre nada na minha vida, vamos trabalhar esse ponto e, depois, alcançaremos a questão principal desse texto.
Bom, digamos que tive uma vida sexual conturbada. Nada foi natural. A recepção da notícia de que não era mais virgem por minha mãe foi um fato certamente perturbador e comprometedor do desenvolvimento sexual de uma jovem. Um ato traumático, dramático, desnecessário, que me fez me sentir usada e suja por algo que tinha sido minha escolha e que, posteriormente, nunca mais me fez ver uma relação normalmente.
Ouvi impropérios, ouvi minha desgraça contada de trás pra frente, até a sétima geração, que estava perdida, descaminhada, dentre outros.
Desde então, desde os meus 19 anos, desconfio dos meus pares. Todos eles ou quase todos. Não que tenha tido exemplo de parceiros porque, né, a gente reconhece as limitações humanas. Não sou perfeita, você também não, querido leitor, e aprenda: nenhum de nós jamais será.
Mas a questão é que não consegui lidar com os outros da mesma forma do que com o meu primeiro namorado, com ele eu conseguia viver um relacionamento sem ter como parâmetro o fantasma do estereótipo falido da relação romântica de dominação e dominado, da necessidade de ter um homem ao lado para que minha existência fosse legitimada ou, pelo menos, que apagasse o pecado original do meu mau passo pretérito.
Isso aconteceu há uns 7 anos, é tempo demais pra ficar sofrendo, não é?
Sim, eu acho que é.
Mas, desde esse fatídico dia, tenho lutado e abordado diversos métodos de relacionamento para que um desse certo e pudesse me redimir dessa falta. Uma luta hercúlea contra um fantasma no qual nem eu acredito.
Não, eu não acredito mais que ele seja real. E como viver sem um parâmetro? Após uma série de tentativas vãs, frustradas, estéreis do nascimento e contaminadas pelo medo?
Como algumas tentativas anteriores de doação e amor incondicional não deram certo (talvez, porque esse não seja meu perfil efetivamente), resolvi voltar ao parâmetro da indiferença, da donzela inalcançável, o que também não tem funcionado porque meu desejo sexual não é exatamente compatível com o de uma donzela.
E eis que me encontro, aos 26 anos, tentando encontrar o ponto de equilíbrio, o que seria eu depois do trauma e o que significa um relacionamento saudável, o que significa aprender a confiar, o que eu quero de um relacionamento, como quero, quando quero e como expressar isso, aprender a me redefinir e prosseguir sem culpa ou medo, sem fantasmas ou cobranças porque, afinal, a vida amorosa de cada um a ele lhe pertence. Suas escolhas são suas, seu sexo casual é seu, seu comprometimento é seu também, nada disso pertence a ninguém e, portanto, que ninguém se intrometa ou atormente o juízo alheio.
Agora, a questão principal é: por que precisamos ser rotuladas? Se fosse uma mulher dita fácil, seria chamada de puta, como não sou, sou chamada de fazida. Por que a mulher é, de forma preponderante, classificada em um relacionamento? Será que só a nós, mulheres, cabe o papel ingrato de preencher esse formulário de expectativas desconhecidas? Esse formulário kafkaniano de requisitos masculinos que devemos preencher para termos a graça de sermos escolhidas por um macho. Que beleza! Que ideal de vida! Até me emociona essa simplificação de nossas necessidades.
Faça-me o favor.
O ponto é que condeno tais rotulações. Essa sistemática barata de alocação de nossas características pessoais sem levar em consideração as imensas e profundas camadas que nos fizeram ser o que somos e, ainda sendo o que somos, não somos de maneira fixa. Condeno, principalmente, a forma cruel com que ela se direciona às mulheres, criando ansiedades inexistentes, medos desconhecidos e sofrimento infrutífero.
Claro que vamos desagradar de certa monta. Somos pessoas dotadas de qualidades singulares que nem sempre são compatíveis com as desejadas por nossos parceiros ou familiares, mas somos o que somos e quanto a isso não há muito o que mudar. Evoluir, sim, mas, essencialmente, talvez uma mudança não seja necessária.
Gostou? Bem. Não gostou? Amém!
E que vivamos assim para nossa paz e felicidade.
Passar bem.



domingo, 2 de outubro de 2016

Pele de frango

Devo confessar: eu amo pele de frango assado. Sim, sociedade, amo pele de frango! Pronto, falei. E, em tempos tão fitness, de alimentos orgânicos, bio, sem lactose ou glúten, declarar amor à pele de frango é um ato de rebeldia.
Mas, gente, vocês já sentiram a crocância dela quando está quentinha? Sua explosão de temperos? Meu Deus, parece que a aquela camada fina de epiderme aviária concentra todo sabor que o frango inteiro poderia ter! Desperdiçá-la seria um ato de muita abnegação, que, muitas vezes, confesso não ter.
Claro, caros leitores. A vida é curta para se economizar.
E nos economizamos de tantas formas: evitamos amar para não sofrer, permanecermos namorados para não lutar pela felicidade solitária do solteiro, guardamos mágoas para não discutirmos, vamos da casa para o trabalho do trabalho pra casa todos os dias, adiamos a exposição tão desejada, evitamos o encontro pelo medo do desconforto, não comemos glúten sei lá o por quê, malhamos para prolongar a saúde, não viajamos se podemos por vislumbrar o transtorno da viagem e as confusões daquele convívio obrigatório durante certos dias e, por fim, vamos evitando o prazer necessário que nos constitui humanos.
Aquela porção de desequilíbrio, que nos faz seres orgânicos, únicos (em um sentido bem pretensioso mesmo, de sermos únicos e insubstituíveis, porque, na minha humilde opinião, não somos, mas sobre isso, falemos depois). Enfim, aquela porção de sentidos e erros que estão constituídos no nosso genoma espiritual e que nos singularizam e singularizam essa louca e indefinida experiência de vida na terra.
E, veja bem, aqui, não faço apelo para que vivam uma vida irresponsável ou desregrada, mas, que não sintamos culpa pelo desvio (seja lá o que isso queira dizer), que possamos nos permitir viver de forma mais leve, aceitando falhas e evoluções, vendo o corpo como máquina defeituosa, a moral como escultura em construção e que saibamos contrabalançar os deslizes com o que de belo vamos arquitetando.
Pois bem, meu povo, a vida é hoje e hoje é domingo e comi pele de frango, mas tudo bem, amanhã é segunda, dia mundial da academia e dietas e lá estaremos com afinco, com fervor.
E assim vamos seguindo porque se eu não chegar até amanhã, ninguém me tira o prazer de ter vivido até aqui.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Eu e o cara de trinta e poucos anos.

Normalmente, saio com caras da minha idade (vinte e seis), naquele intervalo de dois anos pra lá, dois anos pra cá, uma margem de erro segura, na qual se encontra humor em comum, nível de maturidade também afim e a conversa flui como todo bom início de relacionamento ou encontro casual deve ser.
Mas, naquela noite foi diferente, eu encontrei um cara de trinta e poucos. Ele estava ali bêbado, foi um olhar, um sorriso e começamos a conversar.
Até então nada ocorrera, foi quando depois, em outro dia, depois de muita conversa e algumas rusgas, saímos pra beber.
Obviamente, eu o queria. Não era bonito. Não era propriamente simpático ou charmoso. Longe disso. Mas, entre tantas opções e possibilidades, eu o quis. Lá pela segunda cerveja, fiz o que deveria ser feito. Dei um beijo no rapaz.
Toquei a pele do seu rosto e senti a textura diferente da minha, diferente dos outros e pensei, de relance, no decurso do tempo, na limitação física e na precariedade do corpo.
Já havia ficado com um rapaz mais velho há alguns anos, mas isso foi história que me contaram porque eu não me lembro e, logo, não ocorreu. Assim, essa foi a primeira vez que, de forma plenamente consciente, eu estava com alguém 9 anos mais velho que eu.
Confesso que foi estranho enxergar nele que o tempo passará pra mim também.
Eu que vivo tão amante dessa juventude, que me sinto mais capaz a cada dia, também envelhecerei.
Não houve maiores diferenças entre ele e os demais, além dessa óbvia percepção e o fato de ter sido um perfeito cavalheiro, porque gentileza anda em falta por aí, dizem as más e boas línguas.
Acho que o efeito maior daquela pele menos rija foi entender que o tempo tem seu comando, suas regras e, daqui a 9 anos, eu serei ele.
E o que fazer de posse dessa informação?
Não sei.
Acho que nada.
Não vale a pena o cansaço da reflexão. Talvez, a resposta seja deixar a vida correr lépida e irreversível.
No fim, a noite acabou muito bem, obrigada.
Cada um foi seguir a sua vida com a impressão que o outro lhe havia deixado (ou não).




quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Há tempos eu escrevia versos bonitos, sabe? Desses que nascem do bolo de emoções e transformam-se em palavras ininteligíveis para aqueles que as lêem, sinestésicas, talvez, como a nova literatura diria, mas sem qualquer sentido.
Hoje, eu já não sei quem sou e do tanto que mudei, acho que vingou em mim um amor pela vida. Pelo cotidiano, pela bobagem alheia, pela conversa do trem, por essa vida que vai nos faltar um dia e que a gente passa chamando de banal. Banal, tá, sim, sei.. Banal é a nossa vontade de achar o etéreo sendo que morreremos ao final. Banal é achar que o amor platônico e frustrado tem mais peso que a conquista de uma noite, que a conversa de um táxi ou uma conversa de lanchonete.
Tenho achado a vida por si só suficiente para me nutrir e, talvez, por tanto tempo tenha buscado o além, que a rotina me escapou.
Essa banalidade metódica, pragmática, de baixo calão e muita oscilação é que é o combustível do nosso vigor.
O resto é mentira.
Auto enganação para que soframos as angústias do dever ser, que nunca será e que vivamos aprisionados pela ilusão de um porvir, que, em essência, só traz condenação.

domingo, 1 de maio de 2016

hoje é dia de escrever sobre a promessa da vida, o fardo do real e a beleza do infinito da fé.
quando se nasce, nos é prometido o mundo. os amores. os sins. tudo lhe será concedido, basta que vá e siga.
mas não é assim.
a vida vem com suas verdades, crueldades e limitações. a vida nos diz não e arrasta-nos ao seu bel prazer. que seja dito ao prazer do destino ou do que quer que seja.
fato é que chega hora que nossas certezas se esvaem, elas morrem como se nosso corpo estivesse no lugar errado, se a alma estivesse desencaixada com o peito angustiado de tanta promessa não cumprida.
não, o amor não chegou.
o emprego deu errado.
o negócio faliu e você está no chão.
massacrado por tantas barreiras, por tanto ódio.
seus sonhos não eram como esperado.
enfim, a realidade se impera.
é soberana diante do seu querer.
até a sua raiva é inútil, o vigor do seu corpo e sua alma tornam-se ridículas diante da força do que vem.
da onda, que está na sua frente.
e ela vem.
te vira, revira.
joga no chão.
tira sua dignidade, pisoteia.
você está sozinho nessa praia escura.
porque, no final das contas, ninguém vive suas dores por você.
e, por mais acompanhado que se esteja, é dos seus olhos que rolam a lágrima.
é o seu coração que é sufocado e é a sua fragilidade que está exposta.
nesse terreno vazio, inóspito e desumano, nasce a beleza da existência.
a invenção mais preciosa: a esperança.
ela brota de você e do seu vazio.
a esperança no novo nasce pequena, franzina, quase que prematura.
são poucas as chances de sobrevivência, mas ela nasceu.
a esperança nasceu em solo salgado.
e ela vai crescendo, vai pulsando.
a vida vai se ordenando de dentro pra fora.
o dia amanhece e você vê que a onda levou seus medos, levou seus pequenos apegos.
levou a mesquinharia do zelo infrutífero ao ego.
foram os excessos.
foram as ilusões.
tudo que não nutre, mas engana foi embora.
e sobrou a sua força de lutar por si.
por sua reconstrução em solo adequado.
no solo que o destino determinou.
há o medo do recomeço e há a certeza do dever.
há a beleza da maturidade e o frescor do novo.
um recomeço em alma revigorada de banho de mar.
o recomeço não traz verdades, não traz nenhum porto, mas ele traz a força do crer.
a mansidão da paciência, a sensação de paz de quem já não perde mais o mesmo jogo e que está pronto pra caminhar.
traz o prazer de sorrir, a felicidade outrora amargurada.
traz a entrega e devolve o prazer de novos sonhos.
que venha o futuro, a graça de viver.
a luta do cotidiano, a vitória do presente e a bravura da continuidade.
que venha a vida e sua complexidade porque estamos de corpo e alma novos.
prontos para vencer.



terça-feira, 1 de março de 2016

hoje é o dia em que perco o sono. o dia em que escrevo em linha reta. apenas faça o que deve ser feito. você sabe que é isso. apenas vá. Deus te guiará. mas vá. prossiga. não é hora de parar. sem mais desculpas. não viva metade do seu potencial. corte. corte. corte o que te trava. liberte-se da dor. por mais que não seja fácil. urge o estado de necessidade. hora de ir. bye, bye. old me is just telling bye. i'm not afraid anymore. não posso perder pra mim. não posso perder pra ansiedade. a partir de hoje não há desculpa para o cansaço. seu cérebro não pode te consumir. a dor de existir não será maior que a de viver. e conquistar. vamos. é hora.